Aos 26

Amor, eu sinto a sua falta
E a falta é a morte da esperança
Como um dia que roubaram o seu carro
Deixou uma lembrança

Que a vida é mesmo
Coisa muito frágil
Uma bobagem
Uma irrelevância
Diante da eternidade
Do amor de quem se ama

Por Onde Andei – Nando Rei

Se alguém me perguntasse, se de fato há vida após a morte, eu não saberia dizer ou explicar da forma mais ”kardeciana” que se pode esperar, eu apenas posso dizer, senhor ou senhora leitora, que eu, no alto dos meus quase 26 (falta menos de 30 minutos para meus 26 anos), já morri muitas vezes.

Provavelmente você deve achar que:

a) a moça que vos fala é mais uma pseudo-espiritualista em busca de atenção.

b) ok, ela está chapada.

Ah, não, creio que não sou a única que morreu várias vezes sem precisar de fato estar morta, sim, há tantas cruezas e decepções no mundo, que julgo quase impossível que alguém passe por essa vida, sem morrer no mínimo umas 4 vezes. Pois é.

miss thing haidy sensei

Você morre ao perder um grande amor, morre ao passar por experiências traumáticas, como acidentes quase fatais ou situações de extremo perigo, você morre quando alguém que você ama muito, morre de fato. Digo que você morre, por que você nunca mais será o mesmo, os sorrisos mudam, a forma de encarar coisas, situações e pessoas, mudam. Você morre e renasce, para ser mais forte. E mais feliz, quem sabe.

Sabe aquele menino que vai para as guerras do mundo? Ele morre em campo de batalha, que o destino o guarde na palma da mão e o traga de volta inteiro, mas, mesmo assim, ele está mudado, a inocência morre.

E na nossa vidinha tão pacata. isso acontece também.

Acho que a primeira vez que eu morri, foi lá pelos 19, minha avó, uma segunda mãe para mim, foi diagnosticada com câncer, e se você quer saber a minha opinião, creio que câncer é o sofrimento mais desnecessário do universo, se existe alguém lá em cima, me deve algumas explicações com relação a isso. O diagnóstico caiu feito uma bomba no nosso pequeno núcleo familiar, afinal há muitos casos de câncer na família, e ninguém sobreviveu. Era como se a sentença já tivesse sido dada. Mas mesmo assim, somos de uma persistência e teimosia admirável e por vezes incômoda. Resolvemos lutar, não havia muitas opções.

Fui jogada em um mundo totalmente adverso ao meu.

Sou filha única de uma admirável mulher que sempre exigiu minhas boas notas e organização em casa, e um homem tão admirável quanto, ex militar e muito rígido. Pra ter uma ideia, olhar o armário de meu pai me dá um senso de vergonha incômoda, minha mente é um caos, meu guarda-roupa e quarto refletem muito bem isso. Sendo assim, apesar de cobrada sempre fui muito protegida. Ter de ser responsável por outra vida além da minha (que na real eu nem era 30% responsável ainda) foi algo que me deu muito medo, afinal, era uma situação delicada, um deslize e nenhum pedido de desculpas sanaria toda a dor e culpa que eu pudesse vir a ter. Mas fui em frente.

Claro que mais tarde, minha mãe viria em meu auxílio.

Com o tempo alimentei esperanças de que minha avó poderia vir a ser uma exceção a regra, ela parecia se fortalecer com o tratamento e nossos cuidados. Mas a garota de 19 que já havia morrido antes de chegar, morreu um pouco mais, quando os médicos disseram que sua avó não resistiria a mais uma seção de quimioterapia.

Foi um golpe, na verdade vários, por que me senti um débil lutador de boxe em um ringue aonde o meu adversário era o choro 24 horas contido. Eu tinha medo que ela me ouvisse chorar e entendesse tudo, sem que eu falasse nada.

E em 4 de novembro, a garota morreu de vez, junto com a avó.

miss thing haidy sensei 1

É meio dramático, mas totalmente realista. Creio que o meu eu de 19 olharia meu eu de 26 (sim, já é meia-noite) e diria: – Uau, você ficou realmente séria e até um pouco chata.

Pois é, “Eu de 19” vamos apanhar bastante, morrer e renascer bastante até os 26.

Apesar de esse ser um dos eventos mais traumáticos da minha vida, eu tive uma série de outras experiências que me fizeram entender o mundo de uma maneira que provavelmente eu não entenderia antes. Acho que isso acontece com todo o mundo, apesar de ser bem desagradável. Mas isso me serviu para muitas coisas, e a principalmente não me deixar abater.

Creio que a minha última ”morte” até agora, foi a alguns dias atrás.

Alguém que eu não sabia o quanto era importante também se foi, não foi um luto tão grande quanto o que o de minha avó têm sido, mas me serviu pra entender que a vida é frágil demais, repentina e inesperada demais. A vida não é uma mãe sábia e cheia de conselhos. É mais uma professora medieval que só te dá tapa na cara. E sim, o jeito é enfrentar.

Faz nove minutos que eu tenho 26 anos e sinto que meu coração está idoso. Seria normal?

Bem eu creio que eu deveria dormir, e deixar que você, senhor ou senhora leitora desses devaneios absurdos, entenda o que quero dizer.

Até logo.

Uma Haidy não muito Sensei, no momento.

P.S.: Até o fim dessa edição, Haidy-Sensei lembrou que as coisas nunca são tão ruins, afinal tem duas mães, dois pais, e um amor que provavelmente durará a vida inteira.

Anúncios

2 comentários sobre “Aos 26

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s